Quando um
acadêmico
médio reverbera as injustiças do capitalismo,
percebe-se em seu discurso um total senso de
desproporções. Há um abismo entre o que ele
prega e o que realmente ocorre no cotidiano. Os lugares comuns de
sua fala são estereótipos maniqueístas,
forjados a partir de um imaginário fictício de uma
ideologia: o empresário é um explorador
malvado e o assalariado é vitima da
exploração, que implora ao Estado socialista toda
proteção paternal, servil e redentora. A
figura do capitalista e, mesmo do assalariado, é fantasiosa.
O mito comum alardeado pela militância acadêmica
é a de um burguês de cartola, que não faz nada
e espera até o final do expediente, sugando o trabalho do
empregado. Mal sabem tais indivíduos o quanto é
custoso, dispendioso e arriscado abrir uma empresa; que a atividade
empresarial só funciona com uma boa
administração; e que o capitalista arrisca uma boa
parte do seu tempo e recursos, para pagar todos os custos de seu
investimento. Ser um capitalista é, acima de tudo, um
ofício metódico, sistemático, tedioso, que
exige paciência e dedicação. Há
empresários que não conhecem férias; outros,
mal vêem a família. E uma boa parte desses
trabalhadores é o primeiro a entrar e o último a sair
da empresa. Sem contar o peso dos impostos, encargos e
aborrecimentos que o empresário é capaz de
agüentar, tanto do Estado, como de empregados e consumidores.
Tudo está na sua mão. Ele sente o peso das
responsabilidades de agradar ao consumidor, tanto quanto pagar seus
funcionários. E só depois de todo esse
esforço, ele consegue lucrar no final do mês.
Porém, a fantasia em torno do conforto do capitalista
é só uma parte da coleção de mitos; nem
todo empresário vive num mar de rosas e de riquezas. As
pequenas e médias empresas familiares sofrem muito pra
sobreviverem no mercado. Quase todas elas imploram por
consumidores, “Volte sempre”,
“obrigado pela preferência”,
disputando clientes no tapa. Até porque a classe
acadêmica socialista não contabiliza os
autônomos, que embora pobres, são também
empresários. Um camelô, um vendedor de quinquilharias
ou mesmo um marchante é tão negociador e
empresário quanto um grande industrial ou dono de uma rede
de supermercados. Ha vendedores de bombons, pipoqueiros e outros
mascates de rua que contraram pessoas. A diferença
básica está tão somente na
acumulação de capital e no crescimento da empresa.
Daí tira-se outra tolice universitária: a de
que as empresas bem sucedidas sempre foram grandes conglomerados
econômicos. É como se as empresas tivessem
alguma geração espontânea.
Os empresários, em geral, são homens práticos,
empíricos. A grande maioria não conhece as teorias
dos acadêmicos. Muitos nem fazem idéia de
noções básicas de economia ou de seus
conceitos. Todavia, a capacidade intuitiva deles de saberem
explorar as boas oportunidades e criar perspectivas no deserto
é realmente assombrosa. Este, talvez, seja o segredo de
qualquer sucesso empresarial. Empreender é a capacidade de
analisar oportunidades onde ninguém as vê. Ou melhor,
que muitos podem ver, mas poucos são capazes de se arriscar.
É aquilo que, pomposamente, alguns economistas chamariam de
“expectativas racionais”. O
livre mercado funciona assim. . .
A grande maioria das grandes empresas e das multinacionais nasceu
de alguma sarjeta de subúrbio. Quem imaginaria, um dia, que
a pizzaria Hut ou mesmo a Macdonald´s, no inicio de suas
operações, seriam multinacionais? Quem diria que a
empresa do Sr. Samuel Klein, um judeu miserável do gueto de
Varsóvia, criaria uma grande empresa, através da mera
venda de porta em porta a retirantes nordestinos de São
Paulo? Por falar em judeus, os semitas, entre os quais, incluem-se
os árabes, criaram ricas empresas do nada, através da
venda de porta em porta, de casa em casa. Aqui no Pará eram
chamados
de“prestação”,
porque viviam de vendas a prazo de suas quinquilharias. Hoje
são famílias ricas, donas de grandes lojas e
armarinhos.
Aqui há outro mito que é destruído: a
de que as famílias burguesas são
aristocráticas. A divisão
intransponível entre capitalistas e assalariados, na
visão marxista, não somente é fora da
realidade, como sua repetição é fraudulenta,
para dizer o mínimo. Na verdade, há bem menos
diferenças de origem social entre burgueses e
proletários. Na prática, qualquer indivíduo
pobre pode ser um empresário, se tiver dons para isso. Como
também nem sempre é uma grande empreitada de riqueza
ser empresário. Um assalariado de uma multinacional, entre
os quais, grandes executivos, ganha bem mais do que milhões
de empresários no mercado. Isto se for dito que metade da
população ativa norte-americana é dona de
ações no mercado, sendo assalariadas e capitalistas
ao mesmo tempo.
E onde essa mistura se insere na realidade brasileira? Eu vi um
exemplo clássico disso na loja da minha mãe.
Há um funcionário, que a despeito de sua
instrução limitada, tem o dom do empreendimento.
Certo dia, teve uma idéia interessante: como era
época de eleições, ele conhecia muitos
militantes do PT e queria vender as famigeradas estrelinhas
vermelhas. Os preços de Belém era
proibitivos para revenda e ele pediu uma forma de empréstimo
peculiar: meu irmão comprou a tal mercadoria, bem
mais barata, na internet, através do cartão de
crédito. O funcionário ficou de pagar o
valor do cartão somente no dia do vencimento, enquanto
venderia o produto por preços mais baratos de mercado.
Conseguiu lucrar horrores com os fanáticos petistas. Ele
torcia pelo segundo turno das eleições presidenciais,
não tanto por morrer de amores por Lula ou Alckmin, e sim
pelo interesse do vil metal, comercializando as estrelas.
Pecunia non olet,
“dinheiro não cheira”,
já dizia a máxima romana, e os empreendedores
são indiferentes à ideologia. O importante é
que paguem. Mesmo que for a corda que vai enforcá-lo, como
diria Lênin.
Como um burguês honesto, o funcionário da minha loja
capitalizou as rendas e pagou suas contas em dia para meu
irmão. Isso é apenas uma parte da história.
Com o dinheiro capitalizado das estrelinhas, o funcionário
teve outra idéia interessante: mandou fazer
bandeiras vermelhas e amarelas; umas, para os
correligionários do PT, e outras, para os militantes tucanos
do PSDB. Comprou panos vermelhos e amarelos e contratou
umas costureiras para fazer o serviço. Feito as bandeiras,
vendeu mais ainda, pagou as costureiras e deu uma porcentagem para
outros vendedores, que o ajudaram na distribuição do
produto. E ainda ficou com o lucro. O mesmo caso ocorreu na
época da copa do mundo: percebendo a demanda por
bandeiras brasileiras, o funcionário comprava rendas verdes
e a amarelas das cores nacionais, encomendava o serviço
às costureiras, ora distribuía as bandeiras aos seus
sócios, ora os contratava, ora vendia por conta
própria, e no final, ficava com lucro. Ou seja, um
homem humilde, assalariado, com pouca instrução,
consegue entender noções básicas de economia,
sem conhecer os meandros teóricos, que muitos
acadêmicos são incapazes de realizar. É pior,
eles são incapazes de entender.
Às vezes me perguntava onde ficaria a mais-valia, na
ladainha lunática dos marxistas, neste caso e em outros? As
costureiras foram
“espoliadas” pelo
funcionário? Os seus sócios foram
“roubados”, pois não
ficaram com os lucros? O funcionário não empregou
trabalho algum para vender as bandeiras. Que dirá
então das estrelinhas? Será o funcionário, um
burguês ou um proletário? Uma vítima do
capitalismo ou um explorador capitalista? Na idéia imbecil
de Marx, Engels, e uma boa parte dos teóricos socialistas, o
funcionário seria um explorador capitalista malvado,
tão malvado quanto seus patrões. Stalin fuzilou
muitos camponeses autônomos e confiscou seus pequenos lotes
de terra, precisamente por praticarem a mesma coisa que meu
funcionário fez. O Partido Comunista o consideraria um
kulak, ainda que não tivesse nem onde cair morto, por causa
de suas atividades empresariais. Em outras palavras, na
visão dos comunistas, gerar empregos é uma forma
perversa de exploração, para desespero dos
trabalhadores.
Na melhor das hipóteses, ele seria menos criminoso, porque
seu lucro seria, aparentemente, pequeno, em
comparação aos grandes capitalistas. No entanto, nada
mais falsa a lógica da margem de ganho do
funcionário: os seus lucros proporcionais são
maiores do que muitos investimentos capitalistas de grande
porte. Ainda que em termos reais, os grandes
empresários ganhem mais, em termos relativos, o
funcionário ganha bem mais. Ademais, demonstra-se que o
capitalismo, antes de concentrar renda, distribuiu renda. O
funcionário assalariado ganhou, as costureiras ganharam, os
vendedores ganharam e o consumidor premiou os serviços com
seu dinheiro. O comprador da mercadoria também ganhou, pois
suas necessidades foram satisfeitas. Este processo ocorre todo dia,
e é a explicação óbvia de como o
mercado, antes de empobrecer, é o mecanismo mais
viável de prosperidade econômica que conhecemos.
O destino de todo capitalista é o crescimento ou a
inépcia. Condenar o lucro e o crescimento da empresa
é um ato tal de idiotice, que somente essa patologia
é explicável, pela total alienação de
uma classe acadêmica parasitária, incapaz de
compreender a realidade. Da mesma forma, a idéia tola,
mitológica, irrealista da divisão de classes entre
assalariados e patrões não sobrevive num exame mais
apurado.
Ser “dono dos meios de
produção” não implica
vantagens só porque é dono. Visto que
“meios de
produção” são
também mercadorias, bens e formas de capital humano, cujos
valores obedecem a utilidade e a demanda. É mais lucrativo
ser executivo de uma empresa multinacional do que ser
“dono dos meios de
produção” de uma olaria com dois
empregados. Há “donos de meios de
produção” paupérrimos,
como há assalariados riquíssimos. O que diferencia um
e outro não é o status social de proprietário,
e sim a acumulação de rendas para o conforto de cada
um.
A visão marxista dos meios de produção, como
elemento necessário de status social e de um valor em si
mesmo, provém de uma arcaica visão mercantilista.
Seria perfeitamente compreensível para um senhor feudal ou
um servo crerem que as terras seriam os seus únicos
sustentos, seus “meios de
produzir”. A agricultura era a única
atividade que conheciam e não viam a terra como mercadoria.
Para um nobre, o domínio da terra era sinônimo de
status, porque isso lhe dava poderes políticos. E para o
camponês, era um meio de subsistência, já que
não praticava outro ofício. Curiosamente, os
marxistas se alimentam desse fetichismo do proprietário,
para sua crítica à sociedade capitalista. E o
desprezo médio que o socialista tem pelo mercado,
provém desses velhos mitos medievais, a de que o
comércio não gera riqueza.
O marxismo é a velha ressurreição de antigas
crendices erradas sobre noções econômicas. Ele
se insere em outras mitologias ainda mais patéticas do
estatismo econômico, como se a propriedade fosse um fim em si
mesmo. De onde provêm a idolatria do brasileiro médio
por estatais falidas, senão por esse culto mercantilista de
uma longínqua propriedade senhorial? Essa mesma
crença diz respeito à reforma agrária e aos
“latifúndios”, como se
possuir grandes extensões de terra fosse sinônimo de
riqueza. No interior do Pará não é incomum ver
famílias de latifundiários pobres. As terras ficam
ociosas por falta de investimentos e, também, por falta de
compradores. Ninguém as compra, simplesmente porque
ninguém lhes dá valor. Eu conheci um fazendeiro, que
virou motivo de piada por quase todos os seus parentes, grandes
burgueses de Belém, por comprar grandes terras na ilha do
Marajó. Um sobrinho assanhado perguntou ao tio: - O
senhor quer brincar de jogo de War II? Neste caso, as
terras valiam tanto quanto uma fábrica abandonada ou mesmo
uma mercadoria fora de validade: ou seja, quase
nada!
Ademais, nem todos os empresários são
"donos dos meios de
produção", se isto for entendido como
propriedade privada imóvel. Neste ponto, a confusão
mental marxista entre propriedade e mecanismos de
produção de riquezas é ainda mais grave. O
funcionário assalariado, quando contrata os serviços
das costureiras, é um exemplo notório, porém,
há outras situações muito mais complexas. O
que caracteriza o empresariado não é possuir
propriedades ou indústrias e sim capitalizar e administrar
rendas. Um banqueiro que aluga um prédio e capitaliza rendas
em poupanças alheias, não possui a propriedade, como
o próprio estoque de moedas que administra nem dele
é. Um empresário agrícola que aluga terras, um
outro que aluga os materiais de uma fábrica, ou mesmo um
dono de lojas, cujos prédios são alugados, todos
são capitalistas sem serem"donos dos meios de
produção", no chavão
marxista. Serápreciso lembrar que
a marca da coca-cola, como bem imaterial, vale mais do que as
propriedades imóveis e ativos da própria empresa? A
complexa dinâmica do capitalismo defenestra Marx no lixo das
idéias econômicas.
O mundo da economia, dos empresários,
dos assalariados e mesmo do capitalismo, não existe na
cabeça dos acadêmicos das universidades e centros
culturais. É a linguagem do mundo de homens que vivem o dia
a dia dos desafios da realidade, contra o mundinho inventado por
personalidades fraudulentas, psicóticas, elevadas a
pavões emplumados, cuja intenção não
é compreender o mundo, mas, transformá-lo. Muitas
vezes vivem no conforto do funcionalismo público
parasitário, enquanto uma boa parte das rendas são
tiradas desses empreendedores caluniados, através de
impostos pesadíssimos. Quando eu falo para o meu humilde
funcionário algumas noções técnicas de
economia, é como se eu falasse a língua dos anjos; ou
quem sabe, algumas palavras do pai de santo, num terreiro de
macumba. Ele me olha desconfiado e não entende patavina do
que digo. Contudo, ele entende mais de economia que muita gente da
universidade. Esse meu funcionário, reacionário e
explorador capitalista!
Leonardo Bruno,
publicado em:
Abraços, fiquem com Deus e sua
Sabedoria, que é Cristo Jesus,
In corde Jesu, semper,
Gabriel.
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